Ano:2023 (lançado no Brasil em 2024)
Direção:Colin Cairnes e Cameron Cairnes (irmãos australianos)
Roteiro:Colin Cairnes e Cameron Cairnes
Gênero:Terror sobrenatural / Found footage / Mockumentary
Duração:1h 33min
Produção:Image Nation Abu Dhabi, Spooky Pictures, Future Pictures
Distribuição:Diamond Films (Brasil) / Shudder
ELENCO— ENTREVISTA COM O DEMÔNIO
David Dastmalchian como Jack Delroy (o apresentador)
Laura Gordon como Dra. June Ross-Mitchell (a parapsicóloga)
Ingrid Torelli como Lilly D'Abo (a garota possuída)
Ian Bliss como Carmichael, o Conjurador (o cético)
Fayssal Bazzi como Christou (o médium)
Rhys Auteri como Gus (o assistente de palco)
Georgina Haig como Madeleine Delroy (a esposa falecida)
Narração: Michael Ironside (a voz inconfundível de O Vingador do Futuro e Starship Troopers)
PRÊMIOS E DESTAQUES
97% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes — uma das maiores notas do terror em 2023/2024
Estreia mundial no SXSW (South by Southwest) em março de 2023, com aclamação imediata
Aprovado por Stephen King, que elogiou publicamente o filme
Elogiado por atuações, design de produção e aspectos técnicos, recriando com perfeição a estética televisiva dos anos 70
Arrecadou exatos US$ 666.666 num domingo de bilheteria — coincidência que viralizou nas redes sociais
Polêmica: uso de imagens geradas por IA em três cenas estáticas rendeu críticas — a única mancha na reputação do filme
ENREDO — Entrevista com o Demônio (Sem Spoilers)
Jack Delroy (David Dastmalchian) é o apresentador do Night Owls (Corujas Noturnas), um talk show noturno dos anos 70 que vive "patinando" na audiência — e sempre à sombra do rival Johnny Carson. Fragilizado pela perda recente da esposa, Madeleine, e desesperado para voltar ao topo, Jack aposta todas as fichas num especial de Halloween de 1977 que promete ser inesquecível.
Para isso, ele reúne convidados "temáticos": Christou, um médium que de início parece charlatão; a Dra. June Ross-Mitchell, uma parapsicóloga e autora do best-seller Conversa com o Diabo; sua paciente Lilly D'Abo, a única sobrevivente de um suicídio coletivo de uma seita satânica — supostamente possuída por uma entidade chamada Abraxas; e Carmichael, o Conjurador, um ex-mágico cético que jurou desmascarar qualquer atividade paranormal.
O que Jack não imaginava é que a noite que deveria salvar sua carreira desencadearia forças malignas ao vivo — diante de milhões de telespectadores.
O DIFERENCIAL : a possessão ao vivo na TV
Se tem uma coisa que Entrevista com o Demônio faz de genial, é sair totalmente do clichê do terror de possessão. Nada de casas isoladas, porões, quartos trancados, templos ou igrejas escuras.
Aqui, a possessão acontece ao vivo, em pleno programa de variedades, debaixo da luz fria dos estúdios, com plateia, comerciais, intervalos e a pressão do ibope subindo a cada minuto. É o terror do sobrenatural invadindo o ambiente mais artificial e controlado que existe: a televisão.
O formato found footage — o filme se apresenta como a gravação perdida daquele episódio — dá uma camada extra de realismo e desconforto. Você não está assistindo a um filme: você está assistindo à fita que nunca deveria ter ido ao ar.
Destaque: David Dastmalchian (um desperdício de talento em Hollywood)
Agora vamos falar do que realmente importa: David Dastmalchian.
Sabe aquele ator que você já viu em algum papel, em algum filme, mas não lembra o nome — nem do personagem, nem dele — mas se recorda perfeitamente daquela cena e daquele rosto? Então. Esse cara tem nome: David Dastmalchian, ator norte-americano nascido na Pensilvânia.
Ele é um daqueles coadjuvantes de luxo que Hollywood desperdiça há anos: o cara apareceu em O Cavaleiro das Trevas, Duna, O Esquadrão Suicida, Prisioneiros, Blade Runner 2049... e, em todos, rouba a cena em segundos. Sempre o "ator que você reconhece mas não sabe de onde".
Agora, ele pode dizer que tem um filme para chamar de seu.
Como Jack Delroy, Dastmalchian entrega o melhor papel da carreira. Ele constrói um personagem cínico e de bom coração ao mesmo tempo — um sujeito fragilizado pela perda da esposa, obcecado pela audiência e capaz de forçar cada vez mais a barra em nome do ibope. É uma atuação acima da média para filmes de terror, com camadas de carisma, desespero, vaidade e culpa.
Jack Delroy nos remete às mesmas ambições de caráter duvidoso de Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) em O Abutre — só que aqui é terror puro e caos. E Dastmalchian carrega tudo isso com uma intensidade hipnotizante.
É, literalmente, um desperdício de talento. Hollywood passou décadas colocando esse cara em pontas de 5 minutos quando ele sempre teve protagonista de sobra. Entrevista com o Demônio é a prova. E que prova.
Nota: 8,5 / 10
Entrevista com o Demônio é uma baita surpresa no gênero terror de possessão — e, de longe, uma das experiências mais originais dos últimos anos. A ideia de trazer a possessão para o palco de um talk show ao vivo é brilhante, e David Dastmalchian entrega a atuação de sua vida.
O filme é tenso, inteligente, nostálgico e aterrorizante na medida certa. A recriação da estética dos anos 70 é impecável, e a forma como a ganância de Jack pela audiência vai corroendo tudo ao redor é um estudo de personagem fascinante.
Dastmalchian com o Diabo no corpo....dos outros
AVISO DE SPOILERZÃO
A partir daqui terá UM SPOILERZÃO!
Se você ainda não assistiu a esta obra e não quer estragar a experiência, PARE AGORA!
Role para baixo apenas se estiver preparado(a) ou se já viu o filme/série.
Quem quiser voltar depois de assistir, é só lembrar deste ponto!
Você foi avisado(a)! Continue por sua conta e risco... 😈
🧨 A Seção SPOILERZÃO — Entrevista com o Demônio
A semente do mal: o pacto de Jack
Tudo começa muito antes daquela noite de Halloween. Ao longo do filme, somos apresentados a "The Grove" — um clube exclusivo e secreto para ricos e poderosos, com traços claramente cultistas. Jack Delroy era frequentador assíduo, e o filme insinua, com todas as letras, que ele fez um pacto com o oculto em troca de sucesso.
E o preço? A própria esposa. Madeleine Delroy morreu de câncer no pulmão — e o filme planta a terrível suspeita de que sua morte não foi um acaso da vida, mas o sacrifício exigido pelo pacto. Jack, sem perceber (ou fingindo não perceber), trocou a mulher que amava pela audiência.
É essa culpa — essa dívida — que o demônio vem cobrar no ar.
A noite que desandou:
O especial de Halloween começa como um show bizarro e cheio de ceticismo. Christou, o médium, inicialmente parece um charlatão — até que é tomado por uma premonição real e perturbadora, envolvendo o nome "Minnie" (o apelido íntimo que Jack usava com a esposa Madeleine). Abalado, Christou tenta ir embora, mas a produção o obriga a ficar por causa da audiência — e ele acaba vomitando uma gosma preta e morrendo no camarim.
A coisa só piora quando Lilly D'Abo é induzida a "liberar" a entidade. O demônio Abraxas — que Lilly chama carinhosamente de "Mr. Wriggles" — assume o controle. Carmichael, o Conjurador, o cético que jurou desmascarar tudo, tenta manter a compostura... e vira uma das vítimas.
O que o demônio revela ao vivo:
No clímax, o demônio — usando Lilly como porta-voz — vira o jogo contra Jack. Na frente das câmeras, ele expõe o segredo de Jack: o pacto, o clube The Grove, a culpa pela morte de Madeleine. A noite deixa de ser sobre audiência e vira uma confissão pública ao vivo.
E então, a perspectiva do filme mergulha dentro da mente de Jack. Ele é sugado para um ciclo infernal, revivendo suas piores memórias: a esposa no leito de morte, a cena que ele nunca superou. Ali, no delírio (ou na possessão), ele confronta Madeleine — e encara a verdade de que suas escolhas, sua ambição, causaram a morte dela.
O final: quem está possuído agora?
A interpretação mais aceita é que Jack foi possuído pelo mesmo demônio que habitava Lilly. A entidade se apodera de sua mente e o prende num ciclo de tortura psicológica, onde ele revive suas decisões trágicas em loop — e, sob manipulação, comete mais um ato de violência: esfaqueia Lilly até a morte.
O filme termina com a tal "gravação perdida" sendo revelada — a fita que registrou o episódio proibido. E aí entra a genialidade final: o roteiro embaralha de propósito a linha entre realidade e fantasia.
Duas leituras possíveis:
Sobrenatural: Jack foi de fato possuído e condenado a um ciclo demoníaco eterno, pagando o preço do pacto.
Psicológica: Jack perdeu a sanidade, consumido pela culpa e pela ambição, e o "demônio" é apenas o reflexo do homem que ele se tornou.
O filme não responde — e é exatamente por isso que fica na cabeça. A mensagem central é brutal e clara: a obsessão pelo sucesso devora quem se entrega a ela — e Jack Delroy se entregou por inteiro.
A ligação com o seu incômodo (o demônio "elétrico"):
E aqui vale o registro que você já tinha percebido: é justamente no clímax, quando Abraxas/Mr. Wriggles se manifesta visualmente — com aquele efeito "elétrico", brilhante e explícito — que o filme tropeça um pouco. O horror funcionava melhor quando era sugestão, possessão sutil e voz distorcida. Quando a entidade "aparece demais", com luz e brilho estampados, parte da atmosfera se perde.
É uma questão de dosagem: o filme é quase perfeito no jogo de esconder e mostrar — até decidir mostrar demais. Se o demônio tivesse permanecido mais contido, Entrevista com o Demônio seria uma obra-prima irretocável. Do jeito que está, é apenas excelente. E essa pequena falha é o que custa os pontos da sua nota.

