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terça-feira, 15 de setembro de 2026

Obsessão (Obsession) | Resenha Crítica — "Ele só queria que ela o amasse mais do que tudo no mundo. E conseguiu. Pior pra ele."

 



Título:Obsessão (original: Obsession)
Ano:2026
Direção e Roteiro:Curry Barker
Gênero:Terror Psicológico / Thriller / Horror
Duração:1h 49min
Produção:Blumhouse, Tea Shop Productions, Capstone Pictures



ELENCO
Michael Johnston como Bear Bailey
Inde Navarrette como Nikki
Cooper Tomlinson como Ian
Megan Lawless como Sarah
Andy Richter como Carter


PRÊMIOS E DESTAQUE
O filme foi um dos grandes fenômenos do terror independente de 2026:
Prêmio do Público no Festival de Sitges (Espanha) — o mesmo festival onde Possessor brilhou
Estreou na Midnight Madness do Festival de Toronto (TIFF)
Sessões esgotadas no Fantastic Fest
93% de aprovação no Rotten Tomatoes (97% na fase de pré-lançamento)


ENREDO (Sem Spoilers)
Bear (Michael Johnston) é um funcionário tímido de uma loja de discos, romântico incurável que vive apaixonado pela melhor amiga e colega de trabalho, Nikki (Inde Navarrette). Incapaz de confessar seus sentimentos, ele acaba comprando, numa loja de antiguidades, um artefato mágico chamado One Wish Willow — um galho que supostamente realiza um único desejo para quem o quebrar.

Num impulso, Bear quebra o galho e pede aquilo que qualquer romântico desesperado pediria: "que Nikki me ame mais do que qualquer outra pessoa no mundo."

O desejo é atendido — e é aí que a pesadelo começa. Nikki passa a amar Bear de forma absoluta, sufocante e violenta. Ela mente para ele, o vigia enquanto dorme, tenta prendê-lo em casa e começa a caçar e matar qualquer pessoa que ameace se colocar entre ela e seu "amado". O que parecia um romance de conto de fadas se transforma num banho de sangue.

E o toque de gênio do filme? O artefato nunca foi amaldiçoado. Amaldiçoado era o desejo. Querer o amor de alguém à força, tirar a autonomia de uma pessoa até ela deixar de ser ela mesma — essa é a verdadeira maldição.

A PREMISSA É BOBA ?É,E É EXATAMENTE POR ISSO QUE FUNCIONA
Confesso: quando li a sinopse, achei a premissa real e genuinamente boba. Um garoto apaixonado que quebra um galhinho mágico para conquistar a crush? Isso tem tudo pra ser um desastre absoluto, um terrorzão descartável de domingo à tarde. Se não fosse o tino para o terror do diretor Curry Barker.

E é aqui que está a magia. Curry Barker pega essa premissa simples, quase infantil, e a transforma em um filmaço de terror. Ele prova que no cinema de gênero, o que importa não é a grandiosidade da ideia, mas sim a execução. Com um orçamento de apenas US$ 750 mil (inacreditavelmente baixo) e uma direção afiadíssima, Barker constrói uma tensão que cresce de forma quase sufocante — sem depender de jump scares baratos, usando luz, trilha sonora e o desconforto psicológico.

Ele entende que o terror mais eficaz não está no monstro, mas naquilo que nós, seres humanos, somos capazes de fazer uns com os outros.

INCEL-HORROR: o verdadeiro horror
Essa é a categoria que define Obsessão: um Incel-terror. O filme é uma crítica afiada, praticamente cirúrgica, ao homem que objetifica a mulher e faria de tudo para que ela fique, obedeça e o ame à força. Bear não é um rapaz apaixonado — é um sujeito que nunca aprendeu a aceitar um não. Ele não quer o amor de Nikki; ele quer a posse de Nikki.

Quando o desejo se realiza, não é Nikki quem se torna monstruosa — é o desejo de Bear que se materializa em sua forma mais pura e literal. O monstro nunca foi o brinquedo. Foi ele o tempo todo.

E o mais genial (e perturbador): o filme te faz torcer pelo "mocinho" errado por tempo suficiente para doer quando cai a ficha. Você acompanha a história pelo ponto de vista de Bear, simpatiza com ele no começo... e de repente percebe que está torcendo pelo vilão.

DESTAQUE Inde Navarrette
Obsessão é a consagração de Inde Navarrette. A atriz rouba completamente o filme.

Nikki pré-desejo e a "Nikki" pós-desejo são quase duas atrizes diferentes — com uma virada vocal e física tão completa que já está sendo comparada ao panteão das grandes vilãs do terror. Ela entrega uma performance crua, verdadeira e assustadoramente magnética. É aquele tipo de atuação que define uma geração no gênero.

CURIOSIDADES
Orçamento mínimo, bilheteria enorme: o filme custou entre US$ 750 mil e US$ 1 milhão e arrecadou cerca de US$ 14 milhões só no primeiro fim de semana nos EUA.
De R$ 4 mil (literalmente): antes de Obsessão, Curry Barker lançou no YouTube o found footage Milk & Serial (2024), feito por apenas US$ 800, que viralizou com mais de 1,6 milhão de views e abriu todas as portas de Hollywood para ele.
Final alterado por conselho do pai: o final original era um "Romeu e Julieta", com Nikki tirando a própria vida após a morte de Bear. Barker filmou essa versão, mas mudou de ideia após o próprio pai e pessoas próximas apontarem que era muito mais perturbador deixá-la viva para enfrentar as consequências.
Curry Barker tem 26 anos e já é considerado o novo nome do terror em Hollywood, com a Blumhouse e a Focus Features disputando seus projetos.
Furo de roteiro assumido: o próprio diretor admitiu que existe um "furo de roteiro" real no filme sobre a lógica do mundo onde os desejos acontecem — e brincou: "Se existe um mundo onde as pessoas fazem desejos, então dragões deveriam existir."
Michael Johnston é abertamente gay e se tornou o rosto mais reconhecível do filme, concedendo dezenas de entrevistas sobre representatividade LGBTQ+ no gênero terror.

NOTA 9 / 10
Obsessão é a prova definitiva de que premissa simples não é sinônimo de filme simples. Curry Barker parte de uma ideia que poderia facilmente render um desastre genérico e transforma tudo em um filmaço de terror, com uma crítica social afiadíssima sobre objetificação, posse e a cultura incel.

O filme funciona em várias camadas: é um terror psicológico tenso, é um slasher sangrento, é uma comédia negra delirante e é um retrato devastador do homem que encara a mulher como propriedade. E as consequências são trágicas — literalmente até os últimos segundos do filme, deixando Nikki gritando em meio à devastação que ela nunca escolheu.

A performance de Inde Navarrette é um fenômeno à parte, e a direção de Barker mostra uma maturidade impressionante para um cineasta de 26 anos com orçamento de US$ 750 mil.

Se perco meio ponto? Talvez por um ou outro deslize de roteiro (o próprio diretor admite o furo!) e por momentos em que o tom oscila um pouco demais entre o absurdo e o aterrorizante. Mas, sinceramente, são detalhes que passam quase despercebidos diante de um filme tão coeso, original e inquietante.



⚠️ AVISO DE SPOILERZÃO ⚠️ 

Inde Navarrette nas mãos de um incel




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Depois que seu desejo foge completamente do controle e causa várias mortes, Bear percebe que a única forma de quebrar a maldição do One Wish Willow é morrendo. Ele resolve tirar a própria vida e toma uma overdose de comprimidos.

Só que ele não cuspiu os comprimidos — e, enquanto agoniza, a Nikki ainda "possuída" usa outra One Wish Willow e faz um desejo: que Bear a ame com a mesma intensidade que ela o ama. O feitiço faz com que ele desista de tentar se salvar. Os dois se abraçam e se beijam — mas Bear acaba morrendo engasgado pela overdose.

A morte de Bear quebra a maldição. Nesse momento, a verdadeira Nikki finalmente recupera o controle do próprio corpo e percebe o horror de tudo o que aconteceu: os amigos estão mortos, Bear está morto, e ela foi forçada a cometer atos terríveis enquanto estava sob o efeito do desejo.

O filme termina com Nikki em estado de choque, gritando e encarando a devastação ao seu redor — punida por um crime que ela jamais escolheu cometer, vítima do desejo egoísta de um homem que não soube aceitar um não.

O final alternativo descartado: Curry Barker chegou a filmar um final no estilo "Romeu e Julieta", onde Nikki também tiraria a própria vida após a morte de Bear. Mas, ao assistir à atuação de Inde Navarrette e ouvir a opinião de seu pai, ele concluiu que deixá-la viva para enfrentar as consequências era muito mais perturbador. Acertou em cheio — é um dos finais mais indigestos do terror moderno.


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