Se alguém assistir sem saber de nada sobre o filme, vai estar na cara que é Sam Raimi
Resenha: Socorro! (2026)
Rachel McAdams como Linda Liddle
Dylan O'Brien como Bradley Preston
Elenco de apoio completo no elenco secundário
PRÊMIOS E DESTAQUES
O retorno triunfal de Sam Raimi ao terror veio acompanhado de números impressionantes:
93% de aprovação no Rotten Tomatoes — a melhor nota da carreira do diretor, empatando com Homem-Aranha 2 (2004)
Supera Homem-Aranha (90%) e, de longe, Homem-Aranha 3 (63%)
Recepção aclama a volta de Raimi ao gênero que o consagrou, com o "terrir" no sentido mais puro — enoja e faz rir ao mesmo tempo
Referências diretas ao clássico A Morte do Demônio e a Arraste-me Para o Inferno (2009), seu último terror antes deste
ENREDO
Linda Liddle (Rachel McAdams) é uma funcionária dedicada, brilhante e sistematicamente subestimada no departamento de estratégia de uma consultoria multinacional. Após anos de trabalho impecável, ela vê a promoção a vice-presidente que sonhava ser negada pelo novo herdeiro do trono: o arrogante e machista Bradley Preston (Dylan O'Brien), filho do falecido fundador da empresa.
Bradley é a síntese do "chefe tóxico": dá ordens sem sentido, diminui a funcionária, privilegia os amigos da fraternidade e passa os dias jogando minigolfe no escritório.
Para piorar, tudo indica que Linda seria demitida após a tal viagem de negócios.
Só que o avião cai. E apenas os dois sobrevivem, presos numa ilha deserta.
Aos poucos, a relação de poder se inverte de forma brutal: Linda é extremamente habilidosa em sobrevivência, e Bradley — o chefão que se achava o dono do mundo — não consegue sobreviver sem ela. O controle que ele exercia no escritório desaparece na ilha, e o que segue é uma disputa de poder tão bizarra quanto perigosa, entre um filhinho de papai incapaz e uma sobrevivente de verdade.
Aos poucos, a relação de poder se inverte de forma brutal: Linda é extremamente habilidosa em sobrevivência, e Bradley — o chefão que se achava o dono do mundo — não consegue sobreviver sem ela. O controle que ele exercia no escritório desaparece na ilha, e o que segue é uma disputa de poder tão bizarra quanto perigosa, entre um filhinho de papai incapaz e uma sobrevivente de verdade.
O GANCHO: isso é Sam Raimi, e não tem como não ser
Vamos combinar uma coisa: se alguém assistir Socorro! sem saber absolutamente nada sobre o filme — sem saber diretor, sem saber sobre o quê se trata — mesmo assim vai estar escrito na testa que é um filme de Sam Raimi.
Não dá pra não reconhecer. É a câmera acelerada, é o plano-detalhe focado naquilo que vai te fazer rir ou ter nojo, é o terror que vira piada no segundo seguinte, é o exagero que vira estilo. Raimi tem uma assinatura tão forte que ela se impõe antes mesmo de qualquer diálogo. Você assiste ao primeiro plano-detalhe e pensa: "sim, é ele."
Melhor ainda: ele consegue fazer isso dentro de um filme de estúdio, com as limitações de classificação indicativa de um blockbuster — e ainda assim abraçando o caos e o absurdo que só ele sabe dirigir. É um "terrir" na acepção mais pura do termo.
O GORE QUE VOCÊ NAO ESPERAVA
Aqui está a maior surpresa do filme: o gore. Você poderia esperar muita coisa de um filme de sobrevivência em ilha deserta — estilo Náufrago com chefe e funcionária. O que você NÃO esperava era o nível de violência gráfica e sangrenta que Socorro! entrega.
A começar pela icônica e sangrenta batalha entre Linda e um javali, apontada pela crítica como uma das primeiras grandes emoções de 2026. E não para por aí. Raimi não alivia — ele encontra jeitos de meter sangue, tripas e nojo mesmo num ambiente paradisíaco. O resultado é uma mistura deliciosa de repulsa genuína com risada descontrolada, a fórmula exata que fez dele o mestre do gênero.
E o mais impressionante? O gore aqui não serve só para chocar — ele potencializa a fúria justa da protagonista. A violência de Raimi vem alimentada por um elemento de justiça catártica que torna tudo ainda mais satisfatório.
A QUIMICA DA DUPLA: McAdams & O'Brien
Confesso que ia torcendo o nariz para Dylan O'Brien. Sempre o achei um ator um pouco limitado, engessado dentro de um certo registro — bom em Maze Runner, mas sem mostrar muita versatilidade além disso.
Mas aqui ele se supera. Como Bradley, o chefe arrogante que se vê completamente inútil numa ilha, O'Brien entrega uma atuação que mistura carisma desprezível, fragilidade patética e um desespero cômico muito bem dosado. Ele consegue fazer o personagem odiável sem deixar de ser ridiculamente divertido de assistir.
E Rachel McAdams — que já havia trabalhado com Raimi em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura — é simplesmente magnífica. É a atuação mais física e intensa da carreira dela, colocando Linda como uma força da natureza que cresce a cada cena.
Mas o que realmente brilha é a química da dupla. McAdams e O'Brien se complementam perfeitamente — ela, a competente e subestimada; ele, o incompetente e arrogante. O antagonismo inicial, a relação de poder que se inverte, a necessidade mútua de sobrevivência e a tensão que nunca deixa de ferver... Os dois constroem uma dinâmica hipnotizante, que sustenta o filme do início ao fim.
AS REVIRAVOLTAS
O que mais me surpreendeu em Socorro! — além do gore e da química — foram as reviravoltas que ninguém espera. E não são só nos primeiros atos, não.
Mesmo nas minutagens finais do filme, no embate final, Raimi ainda guarda ases na manga. Você vai achando que já entendeu pra onde a história vai — e ele muda o jogo. Mesmo nos minutos finais, o filme ainda surpreende, mantendo a tensão e a imprevisibilidade até o apagar das luzes. Não vou dar spoiler, mas confia: o embate final guarda muito mais do que a premissa sugere.
CURIOSIDADES
15 anos esperando: Socorro! marca o retorno de Raimi ao terror de cinema após Arraste-me Para o Inferno (2009) — quase 15 anos de espera.
Roteiro de peso: escrito por Damian Shannon e Mark Swift, dupla por trás de Freddy vs. Jason (2003) e do remake de Sexta-Feira 13 (2009) — veteranos do gênero.
Reencontro com McAdams: Rachel McAdams já havia trabalhado com Raimi em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura (2022), onde interpretou Christine Palmer.
Releitura inusitada: a crítica comparou o filme a uma união violenta entre Náufrago e A Lagoa Azul — com Raimi, claro, no comando da insanidade.
Os 66 anos de Raimi: a crítica da IndieWire destacou que, aos 66 anos, Raimi ainda lembra a todos "quem ele era quando fez história no gênero" e por que sua voz ainda importa.
A batalha do javali é apontada pelo Boston Globe como "a primeira grande emoção de 2026" no cinema.
NOTA: 9 / 10
Socorro! é Sam Raimi no seu habitat natural — e provando que, mesmo depois de quase 15 anos longe do terror e décadas de carreira, ele continua sendo um dos grandes mestres do gênero. O filme mistura gore inesperado, humor negro afiado, uma crítica ácida ao mundo corporativo machista e uma dupla protagonista com uma química simplesmente incrível.
O gancho se confirma o tempo todo: é impossível assistir Socorro! sem sentir a marca de Raimi em cada plano. E, ao mesmo tempo, o filme nunca soa como fórmula — soa como o caos controlado de um autor no auge.
O gore que você não esperava, a química que funciona contra todas as minhas expectativas sobre O'Brien (que finalmente se supera), e as reviravoltas que sobrevivem até os minutos finais... tudo conspira para que Socorro! seja, com toda justiça, o melhor filme de Raimi desde Homem-Aranha 2.
AVISO DE SPOILERZÃO
A partir daqui terá UM SPOILERZÃO!
Se você ainda não assistiu a esta obra e não quer estragar a experiência, PARE AGORA!
Role para baixo apenas se estiver preparado(a) ou se já viu o filme/série.
Quem quiser voltar depois de assistir, é só lembrar deste ponto!
Você foi avisado(a)! Continue por sua conta e risco.
A GRANDE VIRADA : a ilha nunca foi selvagem
Se você achou que Socorro! era só uma história de sobrevivência na ilha, o roteiro de Damian Shannon e Mark Swift guardou uma bomba: a ilha nunca foi tão selvagem quanto Bradley acreditava.
Logo no início, enquanto explorava o terreno, Linda descobriu que do outro lado da ilha existe uma mansão luxuosa e moderna — a casa de férias de um bilionário. E ela escondeu essa descoberta de Bradley propositalmente.
Pior: Linda usava a cozinha equipada da mansão para preparar refeições "milagrosas" e apresentá-las a Bradley como frutos da sua habilidade de sobrevivência — enquanto o mantinha deliberadamente num estado de desespero, medo e dependência total. Ela não estava tentando sobreviver. Ela estava cultivando o controle.
O BARCO DE RESGATE — e o primeiro assassinato:
O filme dá a primeira pista de que algo está errado quando Linda, já dominando a situação, começa a ignorar sinais claros de resgate. Barcos passam perto da ilha, e ela simplesmente não faz nada — porque, pela primeira vez na vida, ela tem poder e não quer voltar para um mundo onde era invisível.
O golpe definitivo vem quando Zuri, a noiva de Bradley, chega à ilha de barco ao lado de um capitão, em busca de resgate. Em vez de pedir ajuda, Linda permite que os dois caminhem em direção a um penhasco, resultando na morte de ambos. Ela não os empurra — ela simplesmente não os impede. E essa escolha passiva, silenciosa e calculada é muito mais assustadora do que qualquer explosão de violência.
O CONFRONTO FINAL: o taco de golfe
O clímax acontece quando Bradley descobre os corpos da noiva e do capitão e deduz que foi Linda quem os matou. O que se segue é uma batalha estendida e cheia de gore, com toda a assinatura visual de Raimi.
No embate final, Linda usa sua habilidade de manipulação para enganar Bradley: ela o instiga a atacá-la verbalmente enquanto ele segura uma espingarda descarregada que ela mesma preparou. Ao inverter o jogo de poder, Linda o mata brutalmente com um taco de golfe — um objeto carregado de simbolismo, representando exatamente o privilégio de classe alta que ela tanto desprezava.
Bradley, o "chefão" que se achava o dono do mundo, termina frágil, descartável e totalmente nas mãos de Linda — o exato oposto do que ele era no início do filme.
O FINAL CINICO: a vítima virou predadora
O desfecho de Socorro! é, talvez, o mais cínico e desconfortável de toda a carreira de Raimi. Linda não apenas sobrevive: ela venceu mentindo, matando e reconstruindo a própria imagem.
Revelada como a "única sobrevivente" do acidente, Linda é resgatada e assume o cargo de Bradley na empresa, tornando-se uma celebridade do mundo dos negócios. Ela passa a pregar uma filosofia de "cada um deve ajudar a si mesmo" — enquanto desfruta da mesma vida de privilégios e futilidades que antes desprezava.
A doce funcionária subestimada virou, literalmente, a predadora. E o filme deixa essa transformação em aberto: Linda não é exatamente uma vilã — ela é o resultado de anos sendo ignorada, da frustração acumulada e de um ambiente que a empurrou para isso. O público, mesmo chocado, ainda entende o porquê. E é exatamente isso que torna o final tão perturbador.
AS SEMELHANÇAS QUE CRITICA NOTOU:
Com Misery (Louca Obsessão): a vítima que vira algo mais sombrio, o oprimido revelando um lado perturbador
Com Triângulo da Tristeza (2022): a funcionária de baixo escalão que assume o controle e subverte toda a hierarquia social
Com o próprio Raimi: o "terrir" que começa como comédia ácida e termina como estudo de personagem perturbador sobre uma anti-heroína impiedosa
Linda Liddle: de vítima a predadora
Se a Alice de A Morte do Demônio Em Chamas sofreu mais do que qualquer protagonista da franquia Evil Dead, a Linda de Socorro! faz o caminho inverso: ela não sofre — ela vira o monstro.
E é aí que mora a genialidade de Raimi. O filme te faz torcer pela underdog o tempo inteiro. Você quer que Linda consiga a promoção. Você odeia o Bradley. Você se delicia quando ela domina a ilha e ele vira um inútil patético. Você está do lado dela.
Até que, de repente, o tapete é puxado. E você se vê assistindo — talvez até torcendo — por uma mulher que assassinou a noiva do chefe, deixou um capitão morrer num penhasco e matou o Bradley com um taco de golfe. A vítima virou predadora, e você ajudou a torcer por isso.
Rachel McAdams resumiu bem: "Eu amo esses momentos em que você acha que pisou em terra firme, e de repente o tapete é puxado debaixo de você. Eu adorei que esse filme teve alguns desses — quando de repente você sente um aperto no estômago."
Esse é o soco final de Socorro!: ele não te dá conforto. Ele te faz cúmplice. E te deixa com aquela sensação incômoda de que, no fim, a diferença entre a vítima e o monstro pode ser apenas uma questão de oportunidade.
Veredito: O "terrir" mais afiado do ano, com toques de A Morte do Demônio e Arraste-me Para o Inferno, protagonizado por uma dupla com química incrível — e que ainda tem coragem de surpreender nos últimos minutos. Sam Raimi não
perdeu o jeito. E como.
Até a próxima resenha!
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